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                                     pesquisa e criação: Armando José Capeletto

Efeitos do clima tropical sobre os animais de interesse zootécnico

[texto provisório]

1. Conceito de tropicalidade em Bioclimatologia
    
  • Delimitação geográfica: fluída, sem relação direta com as linhas de latitude.
  • Climas: quentes - temperatura média anual de 20ºC ou mais (KÖPPEN).
  • Isotermia: variação de até 5ºC, ao longo do ano.
  • Pluviosidade: chuvas periódicas e abundantes - não inferiores a 750 mm/ano.
  • Solos:
    • geologicamente antigos;
    • relativamente duros;
    • muito lixiviados, devido às freqüentes chuvas;
    • pobres em nutrientes, especialmente nitrogênio; muitas vezes laterizados.

     

    • Laterita: acúmulo de alumínio e ferro, associados ao fósforo disponível, depositados na superfície terrestre. Composta de alumínio hidratado (~60%), ferro na forma de hematita (~33%) e sílica (~2%). A laterização do solo é um processo irreversível.
  • Rios:
      • águas pobres em nutrientes, sem material para sedimentação, devido aos leitos duros;
      • não possuem delta, pois não há material para deposição na foz.
  • Vegetação:
    • altamente diversificada, formando comunidades heterogêneas;
    • capaz de realizar a fotossíntese durante os 365 dias do ano;
    • pobre em componentes nitrogenados e ricas em carboidratos;
    • Exceção: leguminosas, cujos nódulos bacterianos suprem o nitrogênio necessário. Cana-de-açúcar, arroz, milho, mandioca e batata-doce são exemplos de plantas tropicais ricas em carboidratos, mas pobres em proteínas.

     

2. Efeitos da tropicalidade sobre a reprodução animal

  • As áreas tropicais combinam ambientes estressantes com rebanhos numerosos e pouco melhorados geneticamente. A produção e a eficiência reprodutiva são reprimidas durante os verões quentes, quando altas temperaturas se associam a altas umidades relativas do ar. O estresse térmico afeta principalmente a reprodução, mais até do que o ganho de peso.

 

2.1 Efeitos sobre os machos

Vários autores estudaram o criptorquidismo e demonstraram que altas temperaturas na cavidade abdominal provocam degeneração do epitélio germinativo dos machos (há exceções como o elefante, o tatu, a capivara, o tamanduá e as aves, que mantêm os testículos internos).

Assim, para as espécies de interesse zootécnico, o clima quente pode ter efeitos prejudiciais à fertilidade dos machos:

  • Em touros, carneiros e porcos, o aquecimento local dos testículos reduz a mobilidade espermática e aumenta o número de espermatozóides anormais (THATCHER & COLLIER, 1981);
  • Touros submetidos à temperatura de 29,5ºC por cinco semanas sofreram redução da espermatogênese; à temperatura de 32 a 38ºC, os efeitos perduraram por oito semanas após a exposição;
  • Em carneiros, ocorre a redução da libido; os testículos perdem peso e ocorre degeneração dos túbulos seminíferos, levando à produção de sêmen de qualidade inferior (JOHNSON & GOMES, 1969);
  • "Esterilidade de verão" - demonstrada em carneiros southdown (OUTT apud MÜLLER, 1989).

2.2 Efeitos sobre as fêmeas

Os principais efeitos são a redução da fertilidade e a mortalidade embrionária:

  • Em bovinos, o ambiente tropical reduz a duração do estro e aumenta a freqüência de ovulações silenciosas (schmidt, 1970);
  • de modo geral o gado bovino, mantido a 27ºC, alcança a puberdade aos 13 meses (aos 10 meses, a 10ºC); novilhas Shorton e Bhrama retardam a puberdade, a 27ºC (THATCHER & COLLIER, 1981);
  • em ovelhas, a porcentagem de estros é inversamente proporcional à duração do dia;
  • nos eqüinos, a maior freqüência de estros coincide com os dias mais longos.
  • estresse por calor é causa de anormalidades morfológicas dos óvulos, em bovinos (HAFEZ, 1972);
  • temperaturas elevadas provocam malformações fetais, especialmente nos primeiros dias de gestação, além de induzir abortos;
  • displasia placentária - demonstrada em vacas expostas ao calor (HAFEZ, 1972);
  • diminuição de peso dos neonatos foi constatada em bovinos e ovinos (MÜLLER, 1989);
  • porcas mantidas continuamente a 32,5ºC produziram cerca de 30% a menos de embriões, em comparação com as mantidas a 15ºC (WARNICK apud MÜLLER, 189).
  • Nas Aves:
  • frangos nascidos na primavera e no verão amadurecem sexualmente mais cedo;
  • temperaturas elevadas (32 a 38ºC) reduzem a produção de ovos, o peso médio dos mesmos e a qualidade da casca;
  • a viabilidade dos ovos fertilizados também se reduz, no calor.

2.3 Efeitos sobre a temperatura do útero

O estresse térmico parece estar relacionado com o aumento da temperatura do útero, no momento da concepção (TATCHER & COLLIE apud MÜLLER, 1989):

  • gado bovino sob estresse calórico agudo apresenta aumento da taxa de catecolaminas no plasma sanguíneo; portanto, fêmeas estressadas tendem a aumentar a circulação uterina, como resposta adaptativa;
  • o estrógeno aumenta a circulação uterina, favorecendo trocas de calor; a injeção de estrógenos associados à progesterona a reduz (demonstrado em vacas, ovelhas e porcas);
  • a maior secreção de hormônios corticóides, durante o estresse, provoca redução do estrógeno e pode ajudar a diminuir a circulação uterina.

 

2.4 Efeitos sobre a prenhez

  • Na fase final da gestação, foi demonstrado que o estresse térmico provoca o retardamento do desenvolvimento fetal, em ovelhas (TATCHER & COLLIE apud MÜLLER, 1989).
  • A produção de hormônios na placenta é reduzida no calor, com diminuição do tamanho, em fêmeas estressadas; com isso, há redução do aporte de nutrientes para o feto.

 

2.5 Efeitos sobre a inseminação artificial

  • A coleta de sêmen em altas temperaturas produz material de qualidade inferior: em touros, existe uma depressão estacional significativa na eficiência reprodutiva das raças (STOTT apud MÜLLER, 1989).
  • A diminuição da qualidade do sêmen torna-se mais prejudicial, quando associada à queda de fertilidade das vacas inseminadas na estação quente.
  • Os efeitos do estresse térmico sobre os bovinos estendem-se a um período posterior à exposição ao calor: em ambiente subtropical (t= 18,8 a 23,9ºC), a temperatura e a radiação solar no dia anterior à inseminação influenciaram o índice de concepção (JONATHAN apud MÜLLER, 1989).

 

2.6 Efeitos sobre o transplante de embriões

  • Em ovinos, o aumento da temperatura em torno do embrião, no período das primeiras clivagens do ôvo, reduz sua sobrevida (ALLISTON & ULBERG apud MÜLLER, 1989).
  • Embriões de coelhos e de ratos, mantidos a 35ºC por 6 dias, tiveram sobrevida de 35% (SHAT apud MÜLLER, 1989).


2.7 Conclusões

Nos machos, a alta temperatura ambiental provoca diminuição da libido, da qualidade do sêmen e queda geral na fertilidade.

Nas fêmeas, há prejuízos na produção de óvulos, na fecundação e no desenvolvimento embrionário.

Os efeitos do estresse calórico estendem-se à inseminação artificial e ao transplante de embriões e manifestam-se até meses depois da exposição ao calor.

3. Efeitos da tropicalidade sobre a produção animal

  • O calor provoca redução do crescimento, devido a:
    • redução da atividade tiroidiana - diminui a taxa metabólica geral e aumenta o catabolismo;
    • estimulação do centro hipotalâmico da saciedade - menor ingestão de alimento;
    • diminuição da quantidade de nitrogênio incorporado - menor produção de proteínas;
    • redução do glicogênio hepático;
    • efeito lipolítico - menor formação de lipídios;
    • aumento da perda de sais via suor e urina;
    • maior frequência respiratória eleva o pH do sangue e aumenta a excreção de bicarbonatos.

 

  • 3.1 Efeitos sobre o crescimento

  • 3.1.1 Crescimento pré-natal

Estresse calórico na etapa final da gestação provoca atrofia fetal, devido à diminuição da circulação uterina e da massa placentária.

Fetos influenciados pelo estresse calórico da mãe nascem com peso inferior à média.

Fatores que afetam a ingestão de água e o apetite interferem na quantidade de energia e no ritmo de crescimento: temperatura, umidade, vento e radiação solar.

Peso ao nascer é menor nas zonas tropicais do que nas temperadas.

Exemplos:

  • Vacas holandesas - Louisiana/Maryland - comprimento e altura menores na cidade mais quente.
  • Gado europeu em geral - nascimento de bezerros-miniaturas
  • Suínos - mantidos a 35ºC por 8 semanas tiveram extremidades mais longas e menor quantidade de pelos, do que testemunhas mantidas a 25ºC.
  • - menor quantidade de albumina reduz substrato para os embriões.

  • 3.1.2 Crescimento pós-natal

O crescimento das crias em lactação depende do meio e da quantidade de leite.

  • 3.2 Efeitos sobre a produção de leite

Altas temperaturas deprimem a produção de leite.

Temperaturas de 29ºC ou mais, associadas à umidade relativa alta, reduzem ainda mais a produção de leite.

Cada raça bovina tem uma temperatura ótima para a produção de leite:

holandesa - até 24ºC;

suíça e jersey - até 27ºC;

raças zebuínas - até 32ºC.

Fonte: MULLER, P. B. (1989). Bioclimatologia aplicada aos animais domésticos. Porto Alegre, Sulina.


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atualizado em: junho/2002

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